POC com IA em um fim de semana: da ideia ao relatório no cliente sem eu escrever uma linha
Como fazer uma POC com IA ficou barato: 150 commits de sexta a domingo, 400 testes, US$ 37 de API e uma prova de conceito entregue a uma indústria pet antes do contrato.
Ficha
- stack
- Claude Code + Python + React
- custo
- US$ 37 de API + € 49/mês de dados
- tempo
- sex 18h35 a dom 23h50
- resultado
- 400 testes, 12.981 ofertas coletadas

Na sexta-feira, 11 de setembro de 2026, às 18h35, entrou no histórico do projeto o primeiro commit1 de uma POC2 pra um lead da Waxi: uma indústria de alimentação pet, com tabela de mais de 400 SKUs3, que queria saber quem vende o produto dela no Mercado Livre e na Amazon, a que preço e por qual caminho a mercadoria chegou lá. No domingo, 13, às 23h50, o projeto tinha 150 commits, 400 testes passando e um relatório com dados reais de 10 produtos, pronto pra ir pro cliente. Eu não escrevi uma linha de código. Escrevi a especificação, respondi perguntas e revisei o que saía.
Ou seja: a parte do ciclo de venda que sempre foi cara, provar que a ideia funciona antes de alguém assinar, virou a parte barata. Agora ela custa um fim de semana e uma assinatura de IA que eu já pago. Este post abre essa POC com IA: o problema que ela tinha que provar, como foram as 53 horas, quanto custou, o que quebrou e o que uma prova de conceito dessas não prova.
O problema que a POC tinha que provar
O lead já tinha sido frustrado por fornecedores que prometiam a cadeia completa e entregavam pedaço. A condição dele pra conversar estava escrita na especificação desde o primeiro dia: uma POC com produtos reais dele, sem reunião antes do resultado. Nada de projeto de descoberta, nada de ferramenta sob medida com seis meses de roadmap.
E o problema é mais difícil do que parece. Monitorar preço em marketplace é commodity no Brasil; tem dezena de ferramenta fazendo isso. O que a indústria não consegue hoje é o nome de quem está por trás da conta do marketplace. Ela vende pra distribuidor e lojista com regra comercial, e quando aparece um vendedor desconhecido com preço abaixo da tabela, a pergunta que vale dinheiro é "quem é esse CNPJ e de qual distribuidor ele comprou". A cadeia que a POC se propôs a percorrer foi essa: do código de barras4 ao anúncio, do anúncio ao vendedor, do vendedor à razão social, ao preço, ao frete, ao Buy Box5 e, no fim, ao quadro de sócios, pra cruzar vínculo entre vendedores diferentes. Cada dado marcado no relatório como observado, inferido ou indisponível.
Como foram as 53 horas
O fluxo foi o mesmo que descrevi no post sobre workflow de desenvolvimento com IA: primeiro a especificação do que precisa ser provado, depois um plano tarefa a tarefa, e só então código. Aqui o recorte é outro: quanto custa validar uma ideia, e a resposta está no relógio.
Commits por dia na POC
Dados própriosSexta à noite: da especificação ao primeiro relatório
Especificação pronta às 18h35. Plano com as 17 tarefas da POC às 19h31. Às 23h23 o primeiro relatório saiu, com dado real dentro. Da meia-noite até 0h38 rodou uma revisão de código feita por outro agente, que achou 14 problemas, todos corrigidos antes de eu ir dormir. No sábado eu não abri o computador, e é por isso que o painel mostra 15 commits num dia em que ninguém trabalhou: são os da virada da noite.
Domingo: a premissa caiu e o plano foi refeito
Antes de confiar no código, o plano previa um dia de validação manual contra os sites e as fontes reais. Foi nele que a premissa do projeto caiu: o CNPJ do vendedor do Mercado Livre não aparece em nenhuma página pública. Nem no perfil, nem na lista de anúncios, nem na página do produto. O único CNPJ em todas elas é o do próprio Mercado Livre, no rodapé. Na Amazon o dado existe e saiu em 41 de 45 vendedores observados.
Num projeto contratado, essa descoberta vira reunião de renegociação de escopo. Aqui ela virou uma manhã de domingo reescrevendo a especificação e o resto do dia implementando o caminho novo: cruzar os dados abertos da Receita Federal e deixar o modelo investigar cada vendedor na web, com teto de custo definido antes. Foram 96 commits, do meio-dia às 23h50.
O resultado saiu com régua junto. Dos vendedores do Mercado Livre, 12 ficaram com identificação de alta confiança, 29 como prováveis e 139 sem nenhuma, e o relatório mostra os três grupos separados. O "possível" ficou fora da coluna de CNPJ por um motivo medido: numa conferência com 41 vendedores, em 14 de setembro, os prováveis tiveram 7 acertos e 0 erros, e os possíveis tiveram 1 acerto e 13 erros.
Segunda e terça, pra ser honesto
Os 52 commits de segunda e terça são acabamento: o relatório virou tela interativa, com painel por vendedor, perfil de cada empresa e versão pra impressão. A POC funcionando de ponta a ponta, com dado real, é a de domingo à noite. O relatório bonito é da terça. Quem for contar a mesma história deve cortar a linha no mesmo lugar.
Por que validação de ideia é o melhor uso de vibe coding
Já escrevi sobre guru de IA e já disse por aí o que penso de vibe coder que não sabe o que é localhost6, então deixo claro de que lado estou: pra código que atende cliente em produção, vibe coding é irresponsabilidade. Mas POC roda no localhost por definição. Roda no meu notebook, coletando dado sozinha de quatro em quatro horas, e o que vai pro cliente é um relatório. Se a ideia estiver errada, o custo do erro foi um fim de semana. Se estiver certa, o cliente viu dado dele em vez de slide.
O mercado que mais depende de validar ideia rápido já fez essa conta. Segundo o TechCrunch, em 6 de março de 2025, um quarto das startups da turma de inverno de 2025 da Y Combinator tinha 95% do código gerado por IA. O detalhe que costuma sumir na citação é a fala do Jared Friedman, sócio da YC, na mesma matéria: todos esses fundadores eram altamente técnicos e capazes de construir o produto do zero; um ano antes teriam feito isso. "Você precisa ter o gosto e treino suficiente pra saber se o modelo está cuspindo coisa boa ou ruim." É exatamente o que sobrou pra mim neste fim de semana: escrever o que a POC precisava provar, decidir quando a premissa caiu e o que fazer a respeito, e rejeitar o que saía errado.
E tem o lado do dinheiro do fornecedor. Ninguém deixava de fazer POC por preguiça. Uma POC de verdade custava semanas de gente sênior antes de qualquer contrato, então o fornecedor vendia slide, e o lead frustrado com "fornecedor que prometia a cadeia completa" é o resultado disso. Quando a prova custa um fim de semana, a conversa comercial inverte: em vez de convencer o cliente de que vai funcionar, você manda o relatório com o dado dele e pergunta o que ele quer fazer com aquilo. É o caminho que a gente passou a seguir na Waxi com lead que já ouviu promessa demais.
Quanto custou
A conta aberta, aos preços de setembro de 2026.
- Assinatura do Claude no plano Max, o de cinco vezes o limite do Pro, que eu já pago todo mês pra outras coisas. Na página de preços da Anthropic ele começa em US$ 100 mensais, com o Claude Code incluído. Custo marginal da POC nessa linha: zero.
- Dados da Amazon via Keepa, na assinatura inicial: € 49 por mês.
- API7 da Anthropic pra identificar os vendedores, cobrada por uso: US$ 36,70, registrados pela própria POC a cada execução. Os dois testes menores custaram US$ 4,55, e o lote com 100 vendedores, US$ 32,15. A estimativa escrita antes de rodar era entre US$ 30 e US$ 50.
- Dados da Receita Federal e cadastro de CNPJ: gratuitos.
- Servidor: nenhum. Roda no notebook.
US$37
de API da Anthropic pra identificar 100 vendedores do Mercado Livre
Três execuções registradas pela POC entre 13 e 14 de setembro de 2026; a estimativa escrita antes de rodar era entre US$ 30 e US$ 50
Pra comparar com o mundo de antes, a referência mais honesta que tenho é a que software houses publicam. A Clicksoft, em artigo atualizado em abril de 2026, coloca um MVP8 simples entre R$ 30 mil e R$ 60 mil, com prazo de 6 a 10 semanas. A Forja de Sistemas, em 27 de abril de 2026, cita freelancer sênior brasileiro entre R$ 150 e R$ 350 por hora. São conteúdos de quem vende o serviço, então leia como faixa de mercado e não como orçamento. Mesmo assim, imagine a versão hipotética desta POC contratada: um dev sênior a R$ 250 por hora, 80 horas pra chegar no que ficou pronto no domingo, dá R$ 20 mil antes do cliente decidir se fecha. Foi isso que sumiu da conta.
O que quebrou
Dos 202 commits do projeto até terça, 94 são correção, contra 71 de funcionalidade nova. Quase metade do trabalho foi corrigir o encontro do plano com a realidade.
- O Mercado Livre barra robô. Perfil, lista de anúncios e página de produto mandavam o programa pra tela de verificação de conta, mesmo com um navegador de verdade. Só andou quando passou a usar a minha sessão já logada, o que resolve numa POC e não resolve em produção.
- O dado que parecia certo estava errado. A ordem em que o Mercado Livre devolve as ofertas de um produto não diz quem está ganhando o botão de compra. Num dos produtos da amostra coincidiu, e por pouco não virou regra. O ganhador teve que ser lido da própria página.
- Uma correção de formato apagou dado bom. Na primeira execução, a rotina que padronizava datas derrubou a identidade dos 44 vendedores da Amazon que já tinham sido identificados.
- LGPD rendeu quatro correções seguidas: mascarar CPF de microempreendedor, nome de sócio, nome e sobrenome colados no apelido do vendedor, telefone. Isso não aparece no plano. Aparece quando o dado real entra.
O que uma POC dessas não prova
A lista de objetivos do lead tem sete itens, e o próprio documento de acompanhamento marca três como incompletos. Histórico e alertas estão em andamento, sem envio automático. O cruzamento com a base de clientes e distribuidores da indústria tem o mecanismo demonstrado, mas roda só entre os próprios vendedores, porque o cliente ainda não entregou as bases dele. A exportação parou na planilha, sem integração com o BI9 dele. Os quatro indicadores de perda de canal que a indústria pediu não estão no relatório e entraram como evolução.
E tem o que a POC é por natureza. A coleta continuou rodando de quatro em quatro horas depois da entrega, e hoje, 18 de setembro, já são 280 vendedores, 563 anúncios e 12.981 observações de oferta. Histórico de preço precisa de tempo, e o fim de semana entregou o mecanismo, não a série. Roda no meu notebook, com a sessão logada da minha conta pessoal do Mercado Livre, o que serve pra provar e não serve pra operar. Levar isso pra produção é outro projeto, com servidor, credencial própria, coleta resiliente e as regras que service as a software exige. A POC provou a cadeia e mediu onde ela falha. Era isso que o lead queria ver antes de conversar.
O que sobrou pra mim
Sobrou a parte que sempre foi minha: saber o que perguntar, reconhecer quando a premissa caiu, decidir o que entra na coluna de CNPJ e o que fica fora, e ler 94 correções sabendo qual delas importa. O código, um modelo que qualquer pessoa aluga escreveu. Se quiser acompanhar o que vou escrevendo sobre isso, o feed RSS do blog, o meu LinkedIn e o Instagram danielsilvestre.ai são os lugares.
Provar ficou barato. Saber o que provar continua caro.
FAQ
O que é uma POC e qual a diferença pra um MVP?
POC, prova de conceito, é um protótipo pra mostrar que uma ideia funciona com dado real, antes de investir no produto. MVP é a menor versão do produto que um cliente usa de verdade. A POC deste post roda no meu notebook e entrega um relatório; um MVP precisaria de servidor, login e coleta que não dependa de mim.
Quanto custa fazer uma POC com IA?
Nesta, o custo marginal foi US$ 36,70 de API e € 49 de assinatura de dados, aos preços de setembro de 2026, mais a assinatura de IA que eu já pagava. O que não aparece na conta é o tempo de quem escreve a especificação e revisa o resultado. Confira os preços vigentes antes de fazer a sua conta, porque todos eles mudam.
Dá pra usar o código de uma POC feita com IA em produção?
Dá, mas como ponto de partida, e depois de passar por um processo de revisão, testes e segurança que uma POC não tem. Nesta, quase metade dos commits foi correção de coisa que só apareceu no contato com os sites e as fontes reais. Produção acrescenta credencial própria, servidor, monitoramento e regra de privacidade revisada, e isso é um projeto novo.
Notas
-
Commit é cada gravação registrada no histórico de um projeto: o que mudou, quem mudou e quando. ↩
-
POC, sigla de proof of concept, é um protótipo pra provar que uma ideia funciona antes de investir no produto. ↩
-
SKU, sigla de stock keeping unit, é o código de cada item vendável de um catálogo. Sabor e tamanho diferentes da mesma ração são SKUs diferentes. ↩
-
O código de barras do produto é o mesmo em qualquer loja. É ele que permite achar o mesmo item em marketplaces diferentes. ↩
-
Buy Box é o vendedor que o marketplace escolhe pra ficar no botão de compra quando várias lojas vendem o mesmo produto. ↩
-
Localhost é o endereço da sua própria máquina. Código que roda no localhost funciona no computador de quem fez e ainda não foi testado por mais ninguém. ↩
-
API é o acesso ao modelo por dentro de um programa, cobrado por uso e separado da assinatura mensal. ↩
-
MVP, sigla de minimum viable product, é a menor versão de um produto que um cliente consegue usar de verdade. ↩
-
BI, sigla de business intelligence, é a ferramenta em que a empresa monta painel e relatório em cima dos próprios dados. ↩
Quem escreve
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